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A comunicação no autismo: compreender antes de responder

há 12 minutos
4 min de leitura


Nem sempre o problema está naquilo que dizemos. Às vezes, está na forma como esperamos que o outro nos compreenda.


Comunicar parece simples. Falamos, ouvimos, respondemos.


Mas a comunicação é muito mais do que utilizar palavras: envolve compreender mensagens, interpretar contextos, partilhar intenções, reconhecer sinais e encontrar formas de nos fazermos entender.



No autismo, a comunicação pode assumir formas muito diferentes.


Algumas pessoas expressam-se fluentemente, mas sentem dificuldades em determinadas situações sociais.

Outras podem precisar de mais tempo para compreender uma mensagem, organizar uma resposta ou encontrar as palavras certas.

Há também pessoas que utilizam poucas palavras ou recorrem a formas alternativas de comunicação.

Não existe um único perfil comunicativo no autismo.


E é importante lembrar que as dificuldades de comunicação não são iguais para todas as pessoas, nem podem ser deduzidas apenas a partir do diagnóstico ou do nível de suporte.


Falar, comunicar e desenvolver linguagem são coisas diferentes

Uma pessoa pode falar fluentemente e, ainda assim, sentir dificuldades em interpretar ironias, compreender mensagens ambíguas ou acompanhar determinadas trocas numa conversa.


Outra pode compreender o que lhe dizem, mas ter dificuldade em expressar verbalmente aquilo que pensa.


E há situações em que existem dificuldades específicas no desenvolvimento da linguagem, na produção da fala ou na leitura e escrita, que exigem uma avaliação própria.


É por isso que a intervenção deve partir do perfil individual, e não de uma ideia generalizada sobre o autismo.


A Terapia da Fala é um exemplo disso.


Consoante as necessidades identificadas, o acompanhamento pode trabalhar a alternância de turnos numa conversa, a intenção de comunicar, a compreensão e utilização do vocabulário, a construção de frases, a leitura, a compreensão leitora ou a escrita.


Num perfil com dificuldades nestas áreas, por exemplo, a intervenção pode incluir exercícios para compreender o significado das palavras, construir frases mais complexas, ler pequenos textos com maior precisão e organizar ideias por escrito.

Este é apenas um exemplo de intervenção possível, não uma descrição de todas as pessoas autistas. 

Noutros perfis, estas competências podem estar desenvolvidas e as necessidades de apoio serem completamente diferentes.


O objetivo não é ensinar todas as pessoas a comunicar da mesma maneira. É identificar barreiras e desenvolver estratégias que lhes permitam comunicar, compreender e participar melhor.

A comunicação é uma responsabilidade partilhada

Quando uma conversa não corre como esperamos, tendemos a pensar que alguém não compreendeu, não respondeu ou não colaborou.


Mas será que fomos claros? Demos tempo para processar a informação? Escolhemos o momento adequado? Estamos a respeitar a forma como aquela pessoa comunica?

A comunicação entre pessoas autistas e não autistas pode envolver dificuldades de compreensão de ambos os lados. Por isso, adaptar a nossa forma de comunicar também faz parte do processo.


Não se trata de falar sempre de forma infantilizada, simplificar tudo ou eliminar qualquer complexidade.


Trata-se de perceber o que facilita a compreensão daquela pessoa, naquele contexto.


E isso pode fazer toda a diferença em casa, na escola, numa consulta ou numa conversa entre amigos.


🧩 10 formas de comunicar melhor com uma pessoa autista

1. Seja claro e direto.

Diga o que pretende transmitir, evitando ambiguidades desnecessárias. Em vez de «Vê lá se te despachas», experimente «Precisamos de sair dentro de dez minutos».

2. Dê tempo para processar e responder.

Não repita imediatamente a pergunta nem preencha todos os silêncios com novas explicações. Uma pausa não significa necessariamente que a pessoa não ouviu ou não quer responder.

3. Evite expressões ambíguas quando dificultam a compreensão.

Ironias, sarcasmo, metáforas e expressões idiomáticas podem ser interpretados literalmente por algumas pessoas. Quando tiver dúvidas, prefira explicar o significado de forma explícita.

4. Apresente uma informação de cada vez.

Se uma instrução for complexa, divida-a em passos mais pequenos. Isso pode facilitar a compreensão e reduzir a sobrecarga de informação.

5. Recorra a apoios visuais, se forem úteis.

Imagens, listas, palavras escritas, esquemas ou sequências visuais podem complementar a comunicação oral e ajudar a organizar informação.

6. Respeite as diferentes formas de comunicar.

Nem toda a comunicação acontece através da fala. Gestos, escrita, imagens e sistemas de comunicação aumentativa e alternativa podem ser formas fundamentais de expressão. E não exigir contacto visual é também uma forma de respeito.

7. Tenha em conta o ambiente.

Ruído, luzes intensas, movimento ou excesso de estímulos podem dificultar uma conversa. Sempre que possível, procure um espaço mais tranquilo e adequado às necessidades da pessoa.

8. Parta também dos interesses da pessoa.

Os interesses podem ser uma ponte para a conversa, a aprendizagem e a criação de uma relação. Mostrar curiosidade genuína é diferente de utilizar esses interesses apenas para obter uma resposta.

9. Observe sem tirar conclusões precipitadas.

Expressões faciais, postura ou contacto visual não revelam necessariamente aquilo que alguém sente ou compreende. Se não tiver a certeza, pergunte de forma respeitosa, em vez de presumir.

10. Ajuste a sua comunicação e aprenda com a pessoa.

Observe o que facilita a compreensão, pergunte quais as estratégias que funcionam e adapte-se. O que resulta com uma pessoa pode não resultar com outra, e as necessidades podem mudar conforme o contexto.


Para guardar

Comunicar melhor com uma pessoa autista não significa apenas encontrar as palavras certas.

Significa também saber esperar, reconhecer outras formas de expressão, respeitar diferenças e estar disponível para ajustar a nossa própria maneira de comunicar.

Não precisamos de obrigar o outro a comunicar como nós para podermos encontrar uma forma de nos compreendermos.

Porque, no fundo, comunicar não é apenas transmitir uma mensagem.

É criar condições para que ela possa ser recebida, compreendida e respondida.



Fontes e leituras de referência

 
 
 

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